A Formação de formadores para África

Em resposta ao apelo das Nações Unidas à formação de mais linguistas altamente qualificados, o Instituto Camões, a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a Universidade Pedagógica (Moçambique) uniram esforços para criar o primeiro Mestrado em Interpretação de Conferência nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Garry Mullender (first on left)

A Língua Portuguesa em África
(Garry Mullender)

O Português é a língua oficial de 5 países africanos: Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, com uma população total de mais de 40 milhões de habitantes. É língua oficial da União Africana, da CEDEAO e da SADC e utilizada regularmente nas reuniões do Banco Africano de Desenvolvimento e da OMS África, entre outras organisações no continente africano.

A capital de Moçambique, Maputo, acolhe com alguma frequência eventos regionais ou sub-regionais, tais como os Jogos Africanos que se realizarão ainda este ano. Os preparativos para providenciar um serviço de interpretação nos Jogos já começaram. Os organisadores de conferências em diferentes zonas de África queixam-se amiúde da escassez de intérpretes de língua ativa portuguesa no continente, apesar de existir uma longa história, que remonta à Época dos Descobrimentos, de interpretação entre o português e outras línguas presentes em África. Hoje em dia em Moçambique, a atividade do intérprete é bem conhecida, visto que o Presidente da República, por exemplo, frequentemente se faz acompanhar por um intérprete quando se desloca às diferentes províncias deste país multilingue, a fim de poder comunicar com os cidadãos nas suas línguas [1].

Nesta iniciativa, a Universidade de Lisboa, membro do consórcio, European Master's in Conference Interpreting, disponibiliza a sua experiência pedagógica, adqurida ao longo dos sete anos desde que lançou o seu próprio programa de formação. Um dos maiores desafios, porém, consiste na transferência destes conhecimentos aos docentes locais num curto espaço de tempo, para que estes possam vir a assumir total responsabilidade pela lecionação dos módulos práticos em Interpretação Consecutiva e Simultânea. Os futuros formadores deste Mestrado de dois anos serão selecionados de entre os docentes atuais da UP, que já trabalham como intérpretes e as primeiras levas de diplomados. Contudo, todos eles deverão frequentar ações de formação de formadores e ser orientados por colegas mais experientes.

Para atingir este objetivo, as parcerias com outras entidades revelam-se cruciais. A Comissão Europeia, através da sua Direção-Geral da Interpretação não hesitou em proporcionar assistência pedagógica, incluindo alguns breves seminários de formação de oradores (preparação de discursos) para os docentes e intervenientes locais. De igual modo, o European Master's in Conference Interpreting ofereceu a sua assistência pedagógica.

Apoio e Formação de Formadores
(Vitorino Guila)

Vitorino Guila (center)

A decisão da AIIC de prestar apoio aos colegas africanos que desejam frequentar os seus seminários de formação de formadores constitui uma iniciativa extremamente generosa, oportuna e pertinente. Fui um dos primeiros a beneficiar dela.

Estudei três anos em Plymouth, Devon e ensino inglês na Universidade Pedagógica quase desde a sua fundação em 1985, em plena guerra civil. Nos últimos anos, tenho trabalhado como intérprete aqui em Moçambique, tendo-me lançado, tal como muitos outros colegas, aquando da Cimeira da União Africana realizada em Maputo em 2003. Desde esta altura, tenho vindo a aprender a fazer consecutiva e simultânea na tarimba, a única formação possível até agora. Eu e vários outros colegas na UP que se encontram na mesma situação  oferecemo-nos para participar como assistentes no nosso primeiro Mestrado na área e a trabalhar em equipa com os formadores da Universidade de Lisboa.

No mês de Janeiro, viajei a Roma para participar no Workshop de Barbara Moser-Mercer sobre Feedback, após ter assistido aos módulos relativos à consecutiva sem notas e à introdução à tomada de notas. O seminário da AIIC, que durou um dia e meio, foi intensivo e ao mesmo tempo extremamente enriquecedor. Ofereceu-nos conselhos práticos sobre a estruturação e apresentação dos nossos comentários, após a definição das regras de ouro e dos tabús.  Acima de tudo, aprendemos que os comentários não se devem limitar a uma longa lista de erros cometidos pelo estudante, mas que devem-se ajustar aos objetivos específicos do exercício e adequarem-se à fase de aprendizagem do estudante. É através desta análise que o formador tem a melhor oportunidade para  favorecer a aquisição de competências por parte dos formandos, devendo para o efeito propor conselhos construtivos e fixar metas progressivas que estejam ao seu alcance.

À parte prática do seminário, que incluiu várias encenações em que experimentámos dar feedback a estudantes com um perfil-tipo, seguiu-se uma visão geral de questões teóricas que nos permitiram compreender os processos cognitivos que intervêem na aquisição de competências complexas. Além disso, os participantes exploraram outras formas de feedback, nomeadamente a importantíssima avaliação pelos pares, o principal método de avaliação do desempenho num treino de grupo.

Universidade Pedagógica

Os conhecimentos e a experiência adquiridos ao longo do seminário estão a ser transmitidos a outros docentes na Universidade Pedagógica, para que também possam beneficiar da iniciativa da AIIC, que assim adquire um efeito multiplicador. Como se prevê o lançamento de mais cursos de pós-graduação em África, a formação de formadores deve ser considerada uma prioridade para garantir o acesso para os nossos estudantes a formação em interpretação de elevada qualidade. A participação da AIIC é desejável e eficaz. Ao mesmo tempo, proporciona uma oportunidade à Associação para se tornar mais visível em países que procuram uma maior profissionalização e onde a sua presença atual é limitada.

Garry Mullender (gmullender@yhxcaepf1v.fl.ul.pt) leciona na Universidade de Lisboa e Vitorino Guila (vguila@wqb2bpx.hotmail.com) na Universidade Pedagógica.

[1] Na altura da independência de Moçambique em 1975, apenas 20% da população dominava o português, tendo este número aumentado para 39,6%, de acordo com o censo de 1997.



Recommended citation format:
Garry MULLENDER,Vitorino GUILA. "A Formação de formadores para África". aiic.ca June 21, 2011. Accessed June 25, 2018. <http://aiic.ca/p/3658>.